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TERCEIRO SETOR EVANGÉLICO. Desafios e Cooperação.

“Sonho com o dia em que cada cristão de nosso país, em cada denominação evangélica, faça uma análise de sua vocação pessoal e se pergunte: para o que é mesmo que eu fui criado?” (Débora Fahur). O texto a seguir é uma síntese dos dois últimos tópicos de capítulo desenvolvido no livro, Jardim da cooperação: evangelho, redes sociais e economia solidária, 2008. Número e título do capítulo: 7. A Natureza e o Papel das ONG´s e Denominações Evangélicas no Terceiro Setor no Brasil. Autora: Débora Fahur. SÍNTESE. “Qual tem sido a atuação e o papel das ONG´s evangélicas? Existe um padrão cristão a ser adotado nas práticas sociais? Como se estabelecer no novo cenário da luta contra a pobreza?”. (p. 99). 1. COMPROMISSO e vocação cristã para o trabalho com os pobres. O Evangelho de Lucas no cap. 4 apresenta o início das atividades de Jesus de Nazaré entre os homens: "No sábado, conforme o seu costume, foi até a sinagoga. Ali se levantou para ler as Escrituras Sagradas, e lhe deram o livro do profeta Isaías... `O Senhor me deu o seu Espírito. Ele me escolheu para levar boas notícias aos pobres e me enviou para anunciar a liberdade aos presos, dar vista aos cegos, libertar os que estão oprimidos e anunciar que chegou o tempo em que o Senhor salvará o seu povo`." (Lucas 4.16-19). "Jesus acabava de declarar que ele mesmo era o Filho de Deus e claramente diz ter vindo para viver para os pobres, libertar presos e oprimidos, curar enfermos e anunciar salvação. Que a sua opção de vida era estar sempre em contato com os pobres, com os necessitados e com os que são desprezados pela sociedade". (p. 107-108). Vemos aqui a maneira como Jesus abriu o seu coração para a multidão, revelando sua paixão ao projeto de transformar a existência da humanidade, anunciando esperança e ofertando o reino dos céus para os que nada tinham. A partir disto, vemos como a Palavra de Deus ensina que todos temos uma vocação e chamado essencial para servir a Deus neste mundo, pois somos feitura de Deus para realizar as boas obras que Ele designou para os cristãos desde o início dos tempos. "O nosso chamado, então, como filhos de Deus, é expressar a beleza do Senhor através das boas obras. Somos advertidos a não nos cansarmos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não desanimarmos (Gl 6.9-10). Somos aconselhados ainda a Aprender a fazer o bem, atender a justiça, repreender o ofensor, defender o direito do orfão, pleitear a causa das viúvas". (p. 109). "Neste sentido, sonho com o dia em que cada cristão no nosso país, em cada denominação evangélica neste país, faça uma análise em relação à sua vocação pessoal e pergunte, para o que é mesmo que fui criado?, e que encontre suas respostas". (p. 110). 2. RECOMENDAÇÕES e propostas de atuação para as ONG´s e denominações evangélicas. a) A questão da ADMINISTRAÇÃO sempre foi problemática nas ONG´s, até porque tal prática e interesse estava associada como própria de empresas do livre mercado. No entanto, "devido às mudanças no terceiro setor, a abordagem e construção estratégica dos programas sociais passaram a ocupar parte central na administração e exigência na gestão das ONG´s." (p. 111). Observa-se uma lacuna em conteúdos de gestão para o Terceiro Setor, sendo que se busca práticas diferentes de empresas do mercado, com uma administração que desenvolva corretamente "a sua identidade, missão e valores". Para Peter F. Ducker, há grande vantagem na prática administrativa do Terceiro Setor, "pois adotam a prática da atuação descentralizada, a estrutura leve e desburocratizada e o contato permanente com a população-alvo, o que lhes confere flexibilidade e agilidade em seu processo de gestão"; vindo daí a sua grande capacidade de ser eficiente até alcançar seus objetivos (Drucker, 1997). (p. 111). Drucker dá o exemplo do Exército da Salvação como um organismo particularmente eficaz entre as organizações administrativas evangélicas do Terceiro Setor, posto que desde sua chegada aos EUA em 1880, mantém até a atualidade a oferta de seu "duplo produto" aos beneficiários, demonstrando distintiva "clareza de missão, capacidade de inovação, resultados mensuráveis, dedicação e maximização no uso do dinheiro (Watson, 2003)". (p. 112). Sua missão essencial é "pregar o evangelho de Jesus Cristo e suprir as necessidades humanas em seu nome, sem discriminação." Uma questão importante a ser enfrentada na "atuação social evangélica (é) o mito de que, se houver profissionalização, corremos o risco de perder o senso de missão". (p. 112). O exemplo do Exército da Salvação desmente esse mito. Recordo que certa vez, ao chegarmos numa audiência pública de estabelecimento de convênios diante da sociedade civil, percebemos o pequeno número de ONG´s evangélicas, sendo um fato oriundo de não terem "ainda estrutura para elaboração e construção de plano de ação, para adquirir e manter os títulos institucionais, a área jurídica da organização é frágil, as pessoas envolvidas no programa social não tem qualificação para o trabalho". (p. 113). Embora hajam bons exemplos de atividades de Terceiro Setor evangélicas bem estruturadas, um grande número requer buscar a profissionalização em favor de desenvolver padrões de valor em sua gestão. b) CAPACITAÇÃO de pessoas para o trabalho social e cooperação. Desafio constante é a capacitação de dirigentes do Terceiro Setor, posto que o recurso pessoal adequado é bastante procurado para que se consiga atender este mercado distinto, salientando que, a "complexidade que envolve a administração das ONG´s, a qualificação e remuneração de seus quadros se impõem como exigência nos convênios e parcerias...". (p. 113). Veja que o Profeta Daniel e seus companheiros foram capazes de atuar no palácio de Nabucodonosor a partir de sua capacitação extraordinária, o que os conduziu para servir o rei na Babilônia, vindo a ser usados por Deus na restauração do povo do Senhor e templo de Israel. Assim, "as ONG´s e denominações evangélicas precisam ser despertadas a orar, preparar e enviar pessoas habilitadas para participarem nos diferentes conselhos de assistência social, conselhos de direitos, conselhos de segurança pública, conselhos de segurança alimentar. A RENAS - Rede Evangélica Nacional de Ação Social (www.renas.org.br) tem trilhado caminhos no campo da ação social no que diz respeito a políticas públicas", sendo um processo constante de preparo e busca de participação, que tem posicionado membros da RENAS em conselhos diversos de nosso país." (p. 114). c) COOPERAÇÃO. "As formas de organização social que configuram um terceiro setor não são constituídas contra o Estado ou contra o mercado. São, simplesmente, o resultado de uma tendência que anima os humanos em direção à cooperação". (Augusto de Franco, 2003). (p. 115). A visibilidade das atividades evangélicas de ação social tem feito os gestores perceber "a necessidade de coordenar esforços e cooperarem em conjunto para compartilhar, aprender uns com os outros, melhorar e ampliar a efetividade dos seus trabalhos e adquirirem maior representatividade". (p. 115). Há um pioneirismo visível no modo em que o Terceiro Setor tem buscado se articular em REDES, de atuação local, regional e nacional, "como uma organização estratégica e política para estimular as iniciativas de compartilhamento de ideias, de intercâmbio de experiências e de articulações políticas, para a implementação de ações conjuntas". Essa prática tem sido buscada pela dedicação individual dos gestores e há um compromisso do Terceiro Setor evangélico para romper a antiga prática assistencialista, em favor de atividades que promovam os direitos da cidadania da população. Neste propósito, os gestores tem buscado conhecer e atuar junto das diversas instâncias colaborativas e potenciais apoiadores, enquanto se aguarda que o Estado mantenha e avance no diálogo junto das instituições evangélicas, em favor de um relacionamento mais conveniado e de parcerias, e menos burocrático. (p. 115). "A RENAS - Rede Evangélica Nacional de Ação Social, que propondo-se a ser uma ampla rede de relacionamentos entre ONG´s evangélicas, tem buscado oferecer um espaço de encorajamento, capacitação, articulação, mobilização, troca de experiências, informações, recursos e tecnologia social. Sendo uma rede composta por cristãos evangélicos, cuja ação social é motivada pela crença no poder transformador de Deus, entende que em meio à cooperação existem diferentes ênfases e métodos, porém está decidida a manter a unidade da fé. Tendo por alvo a multiplicação, ampliação e qualificação de expressões de ação social onde houver a presença de evangélicos". (p. 116). O propósito é aumentar constantemente o atendimento aos necessitados e as oportunidades de serviço para a ação social evangélica. Deseja criar e manter relacionamentos entre gestores baseado no respeito e unidade, valorando o compromisso cristão do testemunho. Busca apresentar padrões éticos dignos diante da sociedade, "persistindo na busca do cumprimento da missão". (Brito, org. p. 99-116, 2008). "Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada no alto de um monte. (...) Assim brilhe também a luz de vocês diante dos outros para que vejam as boas obras que vocês fazem e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus." (Evangelho de Mateus, cap. 5. 13-16). Neste ano de 2023 vemos as Redes de Ações Sociais da Repas e Núcleo Social de Pastores articulando os valores e propósitos do Terceiro Setor evangélico em Curitiba e região do Paraná. REFERÊNCIAS. Jardim da cooperação: evangelho, redes sociais e economia solidária. Brito, (org). Editora Ultimato, Viçosa, MG, 2008. Autor. Ivan Santos Rüppell Júnior é professor, advogado e ministro licenciado da Igreja Presbiteriana do Brasil, atua nos Núcleos Sociais evangélicos e Repas.

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