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AÇÕES SOCIAIS E EVANGELIZAÇÃO NA HISTÓRIA. Os Irmãos Wesley.

"O Evangelho de Cristo não conhece outra religião que a social nem outra santidade que a santidade social." (João Wesley). O texto a seguir é um resumo de capítulo desenvolvido no livro, Jardim da cooperação: evangelho, redes sociais e economia solidária; "Contribuição do Movimento Metodista para o entendimento da indissociabilidade entre evangelização e ação social", de Welinton Pereira da Silva. O movimento Metodista surgiu na Inglaterra no século 18, como uma experiência de renovação da espiritualidade cristã protestante, que estava desgastada pela intelectualidade e ritualismo. Os colegas e discípulos dos irmãos Wesley buscavam unir "espiritualidade e responsabilidade social", levando o Evangelho e procurando ser Igreja junto da "gente mais simples da época"; pois "seus seguidores atuavam em várias frentes de trabalho social buscando acolher e apoiar os necessitados. A luta contra o tráfico e escravidão, o apoio às crianças pobres e a busca pela reforma do sistema prisional, foram algumas das bandeiras levantadas" neste período histórico de transição da estrutura social agrária para a industrial. (p. 76). João e Carlos Wesley organizaram um grupo cristão de estudos e orações na Universidade inglesa de Oxford, que tinha "objetivo de aperfeiçoar as almas de seus membros na piedade e nas boas obras, para conhecer e fazer a vontade de Deus"; algo que era bastante criticado e desprezado pela sociedade "cristã" da época, que estava num estado "deplorável", conforme fora definido pelo Pastor anglicano e depois Bispo metodista, Berkeley. O grupo de jovens estudantes cristãos se encontrava à noite para avaliar o que haviam feito no dia e prever as atitudes do dia seguinte, à luz dos mandamentos da bíblia e envoltos em orações e comunhão; sendo que alguns membros do grupo buscavam orientar novos alunos na faculdade, enquanto outros visitavam os pobres, viúvas e presos, além de contribuírem para um fundo que pudesse custear livros, remédios e até saldar divídas que ocasionavam até a prisão dos devedores. Conforme o Bispo Sante Uberto Barbieri, argentino, o metodismo "não foi uma nova forma eclesiástica e sim, um movimento de renovação espiritual". (p. 78). Para o Bispo, "o desejo de servir a humanidade" do movimento confrontava o cristianismo daquele período, que "definhava por esterilidade e estava impotente diante da sociedade", de forma que os cristãos não mais influenciavam a sociedade, mas eram sim, conduzidos pelos valores seculares em seus atos e ética. Nesse contexto, os irmãos Wesley enfrentaram o controle religioso e social do governo da Inglaterra, que proíbia celebrações em locais não autorizados, vindo a desenvolver as chamadas "sociedades religiosas", que surgiram em localidades diversas do país, no mesmo formato da que eles haviam iniciado em Oxford. Algo que chama a atenção é o modo como os Irmãos Wesley e o movimento metodista promoveram na história ocidental o "respeito ao ser humano", pois na transição da sociedade monárquica e agrária para a democracia e revolução industrial, as pessoas se tornaram uma grande massa impessoal conduzida de um lado a outro, sem qualquer valor e dignidade, sendo que, para o movimento cristão social dos irmãos, "este interesse não era panacéia passageira, mas sim dever de cada dia, cada hora, uma inquietação incessante para com o bem-estar do próximo". (p. 79). Essa espécie de contracultura cristã do movimento religioso dos irmãos wesley criava conflitos na sociedade e diante de religiosos cristãos da época, com os metodistas sendo definidos como tendo "emoções exaltadas, (e) de tendência monástica". Enquanto isso, os irmãos defendiam que "uma vida cristã mais santa e consagrada deveria desembocar no serviço ao próximo"; conforme vemos no comentário de João Wesley ao Sermão do Monte, (Mateus 5): "Esforçar-me-ei por mostrar que o cristianismo é essencialmente uma religião social; e que reduzi-la tão somente a uma expressão solitária é destrui-la, e que ocultar esta religião é impossível e completamente em oposição ao propósito do seu autor". (p. 80). Os Irmãos Wesley seguiam organizando seus pequenos grupos de "sociedades religiosas", que tinham valores e regras bem definidos no desenvolvimento de suas atividades cristãs de piedade, com os membros devendo: - trazer toda roupa que pudessem para ser doada; - doar todo dinheiro disponível para socorrer a enfermos e pobres; - contratar as mulheres para trabalhar com tecido, dando-lhes salário para se sustentarem; de modo que havia um grupo responsável por visitar os pobres e doentes a fim de anotar sua situação e necessidades, para que as informações pudessem nortear as ações futuras da sociedade de cristãos. João Wesley fazia importante declaração aos membros do grupo: "De toda a maneira que te seja dada, emprega tudo o que Deus te confiou para fazer o bem aos da família da fé e a todos os homens. De tudo o que tens e tudo quanto és, oferece. Qual sacrifício vivo ao Senhor que não deixou de te dar o seu Filho, o seu único Filho, citado no Sermão do Monte". (p. 81). A obra social desenvolvida pelos Irmãos Wesley e movimento metodista atuou em diversas frentes e atos nos anos seguintes: - entregando folhetos explicativos sobre a miséria e necessidades da população mais pobre; - condenando a guerra entre Inglaterra e América do Norte pela independência; - chamando atenção ao acúmulo de riquezas e os meios de "sorte e azar" para conseguir dinheiro, em prejuízo do próximo; - assumindo a abolição da escravatura de negros no Império britânico, sendo este um valor defendido e levado à frente pelo Parlamentar metodista, William Wilberforce; - dedicando empenho pela reforma das prisões; - organizando um plano de ação social para a Inglaterra, com "casas para operários, esquema de trabalho para desempregados, bancos e escritórios para empréstimos aos pobres, consultórios médicos". (p. 82). João Wesley recebeu de seus pais e desenvolveu na sociedade inglesa o valor da atenção com as crianças, preocupando-se em alfabetiza-las e também dar-lhes educação cristã. Ele orientava os adultos para a importância de sempre darem atenção aos pequenos e dedicarem tempo em aulas e atividades junto da infância, de forma que os salões em que as sociedades religiosas metodistas iam se organizando, agregavam sempre um espaço escolar para as crianças. "O metodismo foi, como vimos até aqui, um avivamento espiritual, uma recuperação do velho Evangelho da graça livre e abundante de Deus para todos os homens. Para Wesley e os metodistas primitivos não havia separação entre evangelização e obra social; para eles a obra de evangelização era tanto social como individual". Segundo João Wesley, "o Evangelho não conhece outra religião que a social nem outra santidade que a santidade social". (p. 85). Assim, percebemos como os ideais dos irmãos Wesley no século 18 na Inglaterra podem impactar os cristãos neste século 21, pois "pode nos ajudar muito na busca de um evangelho que não faça distinção entre evangelização e ação social, que não divida aquilo que no ser humano e na vida são indivisíveis: corpo e alma". (p. 85). Ao olharmos para a atual situação da sociedade brasileira, destacamos algumas "metas de desenvolvimento do milênio", que podemos abraçar junto das principais organizações do mundo que atuam pra solucionar a pobreza e miséria, inclusive alianças e redes evangélicas: - "erradicar a extrema pobreza e a fome; - atingir o ensino básico universal; - reduzir a mortalidade infantil; - garantir a sustentabilidade ambiental". (p. 87). Nesse contexto, a Igreja local deve perceber seus dons e ministérios a fim de voltar-se para a comunidade em que está inserida, numa perspectiva de serviço; deve conhecer melhor a região em que está situada, desde o bairro e cidade, até o campo, país e mundo, entendendo como as pessoas vivem em comunidade e de que forma a nossa sociedade está organizada; havendo a "necessidade de apoiar todas as iniciativas que preservem e valorizem a vida humana". (p. 88). "João Wesley e os metodistas de sua época eram, ao mesmo tempo, de um certo misticismo prático e de uma ação social ativa. Dependiam muito, tanto na ordem pessoal como na congregacional, da assistência e orientação do Espírito Santo, do qual sentiam-se agentes e responsáveis ao darem o seu testemunho. Do céu pediam a direção para atuar acertadamente na terra." (Bispo Barbieri). (p. 88). (p. 76 a 89). REFERÊNCIAS: Jardim da cooperação. evangelho, redes sociais e economia solidária / Paulo Roberto Borges de Brito, org. - Viçosa, MG : Ultimato, 2008. Capítulo e artigo: Parte 2 - Exemplos históricos de "Redes Sociais Cristãs". 5. Contribuição do Movimento Metodista para o entendimento da indissociabilidade entre evangelização e ação social, de Welinton Pereira da Silva. Autor. Ivan Santos Rüppell Júnior é professor, advogado e ministro licenciado da Igreja Presbiteriana do Brasil, atua nos Núcleos Sociais evangélicos de Curitiba e Repas.

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