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AÇÃO SOCIAL. Experiência Reformada. Calvino em Genebra, séc. 16. Abraham Kuyper, Holanda.

"A vida religiosa e a vida material do crente estão ambas sujeitas à mesma ordem de Deus". (Biéler, p. 223, 1990). A Reforma Protestante foi estabelecida com a comunicação das 95 teses de Martinho Lutero em 31 de outubro de 1517. Nas décadas de 20 e 30 do século 16, o protestantismo reformado se desenvolveu inicialmente nas regiões suiças de Zurique e Genebra, pela liderança de Ulrico Zuínglio e João Calvino, que foi o maior teólogo do período inicial da Reforma. A AÇÃO SOCIAL DA IGREJA. "Antes de Calvino, a Reforma havia organizado a assistência por doença, velhice e invalidez, a fiscalização parcial dos preços contra o monopólio e a especulação, a limitação da jornada de trabalho e a instrução pública obrigatória". (p. 221). Na década de 1530, a população da cidade de Genebra enfrentava grandes desafios morais e materiais, sendo que em meio "ao redirecionamento espiritual e moral da própria nação" a partir da religiosidade protestante, surge a fundamental questão do tratamento do "plano social", sendo essa "uma luta que é o necessário prolongamento daquela e que caracteriza toda ação de renovação cristã autêntica". Afinal, o período histórico da Reforma coloca "os movimentos de renovação social" ao lado das "correntes de regeneração religiosa". (p. 221). Nesse contexto, decisões de caráter social foram tomadas pelos líderes reformadores nas cidades de Zurique e Genebra no período inicial da Reforma Protestante, como a organização em 1535 do Hospital Geral para atendimento de enfermos, especialmente pobres, idosos e órfãos. Diante da realidade social da população, medidas contra a especulação e o monopólio foram desenvolvidas "para colocar os produtos básicos da alimentação ao alcance de todas as bolsas", sendo determinado um valor adequado para o pão, carne e vinho, além de "medidas referentes à jornada de trabalho", com a definição de que os dias de domingo seriam feriado. Em 1539 a cidade de Genebra define um princípio que visa manter e proteger o atendimento oferecido a toda a comunidade em suas necessidades, orientando que aqueles que não desejam trabalhar e preferem viver na vagabundagem deverão deixar o município. Ainda, foi tomada uma medida social considerada urgente, na criação de uma escola e na decisão de que "a instrução primária" deveria ser obrigatória. (p. 222). Neste contexto de graves problemas sociais e diante das tensões entre ricos e pobres, Calvino institui em 1541, "a quarta ordem do governo eclesiástico, isto é, os diáconos". "A vida religiosa e a vida material do crente estão ambas sujeitas à mesma ordem de Deus. São elas a tal ponto dependentes uma da outra que o serviço social dos diáconos é percebido como um ministério eclesiástico, ao mesmo título que o ministério pastoral e o múnus magisterial", sendo que este serviço foi organizado com duas funções: gerência dos bens comunitários e atendimento dos enfermos. Neste contexto inicial de organização religiosa, política e social da cidade de Genebra a partir das orientações e gerência de Calvino e líderes reformados, "é interessante, e importante, observar-se que o orgão de ajuda assistencial é um orgão misto, dependente, a um tempo, da Igreja e do Estado. Seus recursos provém tanto da generosidade dos fiéis quanto do tesouro do Estado; é o Estado que exerce supervisão civil sobre os bens materiais da instituição, mas os homens que estão incumbidos deste trabalho social exercem verdadeiro ministério eclesiástico". (p. 223). Ao organizar ambos estes ministérios da Igreja em igualdade de valor, tanto da Palavra como do diaconato, Calvino e reformadores atendem tanto "a vida moral de seus membros como também sua vida material. Que a eleição, tanto dos provedores quanto dos hospitaleiros, se faça, como a dos anciãos, no Consistório; e, em elegendo-os, que se siga a regra que São Paulo dá aos diáconos". (p. 224). A partir destes princípios pode-se compreender o modo como "a assistência social é (...) concebida da parte de Calvino e da Reforma como uma função coletiva da Igreja e da comunidade civil". (p. 224). Ao organizar toda a assistência que se precisa e prover todo auxílio e atendimento aos necessitados, a liderança reformada na cidade também disciplina a mendicância e vagabundagem, sendo que a caridade de Genebra devia atender aos moradores e também aos viajantes, além dos enfermos e idosos, especialmente aqueles alocados em asilos. "Será necessário velar diligentemente a que o asilo comum seja bem provido e que isto seja tanto para os doentes quanto para a gente idosa que não pode trabalhar, assim como também para as senhoras viúvas, as crianças orfãs e outras pessoas pobres". (Calvino, Opera Calvini, Tomo 10, cap. 14). Além destes serviços sociais organizados para uma atuação conjunta das Igrejas e do Estado, a reforma de Genebra instituiu "de maneira definitiva a medicina social e oficial. (...) que haja um médico e um cirurgião próprio, às expensas da cidade, que, no entanto, clinicassem na cidade, mas, ainda assim, ficassem incumbidos do hospital e de visitar os outros pobres". (Opera Calvini, Tomo 10, cap. 24) (p. 225). Readaptação Profissional e Preparo para Novas Profissões. "O desemprego reabsorvido pela criação de possibilidades de trabalho". "Não basta, alías, simplesmente propiciar aos pobres ajuda material. Impõe-se, também, dar aos necessitados os meios de, por si mesmos, saírem de sua condição". (p. 225). Os valores da Reforma de Calvino na cidade de Genebra buscavam oferecer aos doentes e pobres as condições educacionais que toda população tinha acesso, sendo "necessário que os pobres, os enfermos e os inválidos sejam reeducados profissionalmente". (p. 225). "Por volta desta época, escreve Roset, foram postos em ação, na execução das valas da cidade, pobres de Mérindol e Cabrieres que haviam sido alojados no hospital pestilencial em grande número. Deus lhes abençoava o labor, porque eram alimentados, e assim via-se crescer a obra que tinha sido confiada às suas mãos, sobre a qual invocavam a Deus de tarde e de manhã e nas refeições. Introduziram o sistema de pagamento a cada um segundo a sua produção e não por dia de trabalho (...)". (Roset, citando Opera Calvini, p. 363). (p. 226). "A ação social reformada não se limita à assistência. Visa aos homens em sua totalidade, ser espiritual e material. Os reformadores também estão constantemente preocupados com a formação profissional da população em geral e da juventude, dos sinistrados e dos refugiados em particular", com Calvino atuando em 1554 para que seja organizada uma indústria de tecidos para gerar riqueza e prover bem-estar para a população. O Conselho da cidade de Genebra é orientado a buscar serviço para os pobres para que estes não dependam do Estado, enquanto que os diáconos se dedicam a lhes ensinar atividades laborais para que tenham uma profissão e condições de sustento. Desta forma, a cidade de Genebra consegue atender ao grande número de refugiados que chegava à cidade, muitos em razão da perseguição religiosa aos protestantes, com Calvino atento em busca de gerar prosperidade para a população do município. A diferença entre a administração conjunta do Estado e Igreja para tratar das questões sociais de Genebra diante das decisões que foram tomadas na França revela os valores religiosos e sociais dos reformadores em contraposição ao pensamento dos líderes franceses, que afastam os religiosos. Na segunda metade do século 16 o Estado francês impediu o clero e religiosos de atuar na administração de hospitais e da assistência, o que, entre outras medidas e consequências gerou "exércitos permanentes" de jovens sem alimento e sem emprego, enquanto que a chegada de viajantes e refugiados aumentou gravemente a criminalidade. Sendo que os mendigos e desempregados eram recolhidos e obrigados às seguintes condições: "trabalhos forçados: trabalham agrilhoados dois a dois, sob a ameaça do chicote ou da prisão, em obras de utilidade pública, remoção de lama e imundicíes, limpeza de lavados, reparos em muralhas de fortificações etc. A ociosidade e a mendicância são passíveis de vara e de chibata (...) os pobres são obrigados a usar vestes distintivas, em Paris, com um sinal especial: uma cruz de tela amarela e rosa no ombro direito. Não são meros homens a quem é preciso dar ajuda; pelo contrário, são seres postos fora da sociedade, que é preciso impedir de a mancharem". (p. 227). No desenvolvimento das políticas sociais e de trabalho da cidade de Genebra, os líderes reformados se dedicam no decorrer dos anos, em prover o devido "reajustamento dos salários", para que todos os trabalhadores "sejam suficentemente remunerados", a fim de que "possam viver decentemente". (p. 227). Neste contexto, "uma vez que o aumento do custo de vida fazia sentir seus efeitos cada mais dolorosos e catastróficos, não cessam Calvino e os pastores de preocupar-se com a sorte das categorias inferiores da população". Calvino ordena coletas semanais de alimentos para ajudar os pobres, além da criação de fundos para assistência e sustento das camadas mais empobrecidas devido aos efeitos da guerra, demonstrando preocupação com a possibilidade de "que os bens destinados à assistência social sejam mal utilizados ou esbanjados", vindo a atuar contra a falta de itens e de cuidados para com os enfermos hospitalizados, bem como com disciplina diante do descuido e má atuação dos funcionários hospitalares. Em meio a essa realidade, os reformadores Calvino, Farel e outros líderes viviam "em extrema simplicidade, vizinha da pobreza", o que preocupava amigos e aqueles que tinham conhecimento da situação. Sendo que mesmo nesta situação, aliado às ocorrências de perseguição e até o massacre dos protestantes em Provença (1545), todo o contexto fez surgir da parte das lideranças de Genebra, a organização de coletas de ajuda e auxílio para todos estes necessitados. "Destarte, à Reforma espiritual e moral que pregam e aplicam à cidade de Genebra, acrescentam os reformadores todas as reformas sociais que daí decorrer. A própria Igreja se organiza de maneira a conferir a seus membros a ajuda de toda natureza que lhe sugere a caridade cristã de que ela vive; depois, ela propõe e exige do Estado que tome ele todas aquelas medidas próprias para estender esta forma de ação à sociedade inteira." (p. 229-230). CALVINISMO. PALESTRAS DE ABRAHAM KUYPER. AÇÃO SOCIAL. O Neo Calvinismo holandês surgiu na segunda metade do século 19 e se desenvolveu no início do séc. 20 como um movimento de reflexão e prática da teologia e princípios bíblicos desenvolvidos pelo reformador João Calvino, no objetivo de aplicar estes valores para a sociedade moderna e industrial. O teólogo, acadêmico e líder político holandês Abraham Kuyper proferiu nos EUA diversas palestras para apresentar o pensamento de Calvino diante das novas realidades sociais ocidentais. Foi "homem de imensos talentos e de energia infatigável, entregou-se à reconstrução das estruturas sociais de sua terra e baseou praticamente todas as áreas de sua vida em sua herança calvinista". (p. 5, 2003). O livro "Calvinismo" traz o contéudo das palestras ministradas na Universidade e Seminário de Princeton, em 1898, e iremos utilizar breve resumo deste texto para complementar nosso conhecimento acerca da Ação Social Cristã na perspectiva das Igrejas Reformada e Presbiteriana, que tem suas bases doutrinárias oriundas do pensamento calvinista. II Palestra. Calvinismo e Religião. "O Propósito da Igreja. (...) Este propósito não pode ser humano ou egoísta, "preparar o crente para o céu". (...) Mais ainda, também sobre a terra, a Igreja existe simplesmente por causa de Deus", e neste propósito o calvinismo busca recuperar e manter o conhecimento verdadeiro das Palavras de Deus e um culto e serviços devidos diante da sua Glória. Ainda e "finalmente, temos o serviço "filantrópico" da Igreja no diaconato o qual somente Calvino entendeu e restaurou a sua primeira honra (...) como elemento indispensável e construtivo da vida eclesiástica". (p. 74-75). Calvino destaca o valor de que os Diáconos da Igreja não são servos dos membros de igrejas, mas sim, são servos de Jesus Cristo, de modo que "tudo que confiamos à guarda deles, simplesmente devolvemos a Cristo como mordomos daquilo que é sua propriedade; e em seu nome deve ser distribuído a seus pobres, - nossos irmãos e irmãs". (p. 76). A Interação do Calvinista com o Mundo. "A anulação do mundo nunca foi a marca do calvinista, mas o lema do anabatista". No entendimento do cristão calvinista, não existem dois mundos, "um mal e um bom, que estão encaixotados um no outro". Deus criou um ser humano apenas, que caiu na queda e se fez pecador, e igualmente há somente um mundo caído, planeta e sociedade "que, desde a Queda, é sustentado pela graça comum (...) Por esta mesma razão, o calvinista não pode fechar-se em sua igreja e abandonar o mundo a sua sorte. Antes, sente sua alta chamada para promover o desenvolvimento deste mundo a um estágio ainda mais alto e fazer isto em constante acordo com a ordenança de Deus". (p. 80-81). A partir desta perspectiva e segundo os valores bíblicos cristãos, "o Calvinismo entendeu que o mundo não deveria ser salvo por meio do filosofar ético, mas somente através da restauração da compaixão da consciência", de modo que a verdade bíblica cristã que o calvinismo deseja propagar para o tratamento da desordem moral e social da humanidade requer o anúncio do conhecimento da majestade de Deus, para que pelo temor a humanidade reconheça também o seu inigualável amor. (p. 84). Ambos os textos acima foram baseados em conteúdos importantes acerca da visão de Ação Social do protestantismo reformado. Primeiro, na anotação histórica de situações ocorridas na cidade de Genebra no séc. 16 e junto de citações de João Calvino, conforme descritas na obra de André Biéler, do livro: o Pensamento econômico e social de Calvino. O segundo, nos princípios do Neo Calvinismo holandês, a partir de conceitos extraídos das palestras de Abraham Kuyper, em 1898. No capítulo II do livro, André Biéler discorre sobre "A vida econômica e as reformas sociais" a partir de uma perspectiva cristã diante da sociedade, trazendo no tópico 2, o tema da "Ação Social da Igreja". Além disso, também traz nos capítulos seguintes os temas das "condições sociais do trabalho", do estímulo e limitação da "atividade financeira", e ainda, da "Escravidão, o Colonialismo e a Missão"; sendo todos estes temas pertinentes aos valores que os cristãos deveriam desenvolver na formatação de uma nova estrutura social a partir dos fundamentos bíblicos cristãos. REFERÊNCIAS. BIÉLER, André. O Pensamento Econômico e Social de Calvino. tradução de Waldyr Carvalho Luz. - São Paulo: Casa Editora Presbiteriana S/C, 1990. (p. 221 a 230). KUYPER, Abraham. Calvinismo. tradução Ricardo Gouveia e Paulo Arantes - São Paulo: Cultura Cristã, 2003. Autor. Ivan Santos Rüppell Jr é ministro licenciado da Igreja Presbiteriana do Brasil, professor do Seminário Presbiteriano do sul extensão Curitiba. Atua em Redes de conexão de parcerias de Ações Sociais Evangélicas na cidade de Curitiba e região.

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