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AÇÃO SOCIAL nas Institutas de CALVINO.

"A "caridade social" tem sido frequentemente exercida pelo calvinismo posterior, e pelos protestantes em geral, em forma puramente individualista. Convém aqui salientar que a assistência social é, ao contrário, concebida da parte de Calvino e da Reforma como uma função coletiva da Igreja e da comunidade civil". (Biéler, p. 224, 1990). Este texto contém um breve resumo de conteúdo acerca da visão de Ação Social do protestantismo reformado, a partir dos princípios e fundamentos descritos nas Institutas de Calvino. AS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ, de João Calvino. No Quarto Volume das Institutas de Calvino há o capítulo 17 que versa sobre a Vida Cristã, texto em que João Calvino apresenta conteúdo sobre o "que consiste a vida do cristão". Calvino busca superar a amplitude do tema ao entender que é "suficiente mostrar certa ordem pela qual o cristão possa ser conduzido e dirigido à verdadeira meta que consiste em ordenar adequadamente a sua vida". (p. 177). Neste propósito, a orientação geral prescrita pelo líder e maior teólogo do período inicial do protestantismo, surge a partir de duas regras e um princípio: primeiro, deve-se adquirir do conteúdo das Escrituras e "imprimir em nosso coração o amor pela justiça, para o qual por natureza não temos nenhuma inclinação"; em segundo, deve-se buscar uma "regra definida" que não nos deixe seguir a vida sem "rumo certo", enquanto que o princípio essencial orienta que todo cristão deve "ser santificado porque o nosso Deus é santo". Ou seja, a "finalidade da nossa vocação" e resposta positiva na união vivencial que Deus restabelece conosco através do Evangelho de Jesus é praticar uma vida de santidade, para que venhamos a manter uma real comunhão junto de nosso Deus e Pai, sendo que Jesus Cristo é o "exemplo e padrão ao qual devemos amoldar-nos". (p. 178-79). Esse chamado e vocação do cristão para viver a sua nova história com Deus orienta alguns bons "passos da vida cristã e do serviço a Deus", que nos desafiam a mover um afastamento "de nós mesmos a fim de aplicarmos todas as forças da nossa mente ao serviço de Deus". Uma experiência em que a nossa nova compreensão acerca da realidade deverá estar totalmente sujeita ao entendimento dado pelo Espírito de Deus, numa "transformação que o apóstolo chama renovação da mente". (p. 184). Desta forma, o cristão irá trilhar o caminho de "buscar não o que nos agrada, mas o que agrada e glorifica a Deus". Um exercício existencial necessário de "renúncia de nós mesmos que Cristo com tanto empenho e zelo exige de todos os seus discípulos, como sua primeira aprendizagem". (p. 185). E aqui, Calvino destaca que toda "abnegação ou renúncia de nós mesmos em parte visa ao bem dos homens e em parte, na verdade principalmente, visa à nossa relação com Deus", surgindo deste entendimento a compreensão de que ao preferir o próximo em honra diante de mim, eis que sou chamado a me dedicar "com toda lealdade a promover o seu progresso", ao invés de orgulhosamente estar acima dele de modo a menosprezar sua vida. (p. 186). "Portanto, quem se orgulha demonstra ingratidão. Por outro lado, constantemente reconhecendo os nossos vícios e defeitos, somos levados a proceder com humildade (...) Além disso, também nos é ordenado que todos os dons de Deus que vejamos em nossos semelhantes sejam por nós de tal maneira exaltados e reverenciados que, em função deles, honremos as pessoas nas quais eles residem". (p. 187-88). Após estas considerações iniciais e do tratamento de nosso egoísmo, Calvino inicia o tópico 13, anotando "quão difícil é cumprir o dever de trabalhar pelo proveito do próximo! Se não deixarmos de lado a consideração de nós mesmos e não nos despojarmos de todo afeto ou interesse carnal". (p. 188). Somente a partir do tratamento de nosso egoísmo e de estar vigilantes acerca das nossas paixões carnais, é que seremos capazes de compartilhar os diversos aspectos dos tesouros que recebemos de Deus através da graça do Senhor. Assim, aprendemos que "tudo o que temos de bom nos foi confiado em depósito por Deus, e, nessas condições, deve ser distribuído para o bem dos demais! E a Escritura vai além, comparando as graças e dons que cada um de nós tem com as qualidades ou funções próprias de cada membro do corpo humano", a fim de que todo dom e riqueza seja utilizado "com a nobre e clara intenção de que propicie o bem comum da igreja". (p. 188-89). Prossegue daí o reformador: "na prática do bem e das ações humanitárias, adotemos esta norma: de tudo o que o Senhor nos deu com o que podemos ajudar o nosso próximo, somos despenseiros ou mordomos, sendo que teremos de prestar contas de como nos desincumbimos da nossa responsabilidade. E mais: não há outra maneira recomendável de administrar o que recebemos senão a de seguir a norma do amor". (p. 189). Daí surge o princípio cristão essencial, assim destacado por Calvino no tópico 14: "Fazer o bem a todos, quer mereçam ou não", afastando de nosso olhar as suas atitudes e observando que cada um deles carrega em si a imagem de Deus, "a qual devemos honrar e amar". "Portanto, seja quem for que se apresente a nós como necessitado do nosso auxílio, não há o que justifique que nos neguemos a servi-lo". (p. 190). Todo estranho carrega consigo uma marca valiosa dada por Deus, e todo ser desprezível carrega consigo a imagem de ter sido criado por Deus, e ainda, qualquer homem que se encontre distante de nós, o Senhor "dirá que se coloca no lugar dele para que reconheçamos nele os benefícios que ele (o Senhor) nos tem feito"; isto sem esquecer aqueles que nos fazem o mal, diante dos quais devemos retribuir com o bem. Sendo que, somente iremos agir assim ao "contemplar neles a imagem de Deus, a qual, por sua excelência e dignidade, pode mover-nos a amá-los..." (p. 190-91). Seguindo neste aprendizado em busca de sermos santos como Santo é o nosso Deus, e no propósito de que vivamos em comunhão constante junto d´Ele dia a dia, aprendemos que toda caridade exige não apenas a atividade, mas especialmente o sentimento de praticá-la com amor perante o próximo. Especialmente quando se observa que ao dedicar uma esmola, igualmente podemos desprezar aquele que a recebe. Portanto, a caridade cristã exige estar no lugar da pessoa que necessita, e que tenhamos compaixão com a sua situação; e que haja especial misericórdia a cada vez que socorremos um necessitado. Assim, "cada um deverá considerar que é devedor ao próximo de tudo o que tem e de tudo o que está em seu poder, e que não deve limitar a sua obrigação de praticar o bem, a não ser quando já não tenha recursos para isso;" e que estes recursos "devem estar subordinados ao que manda a caridade". (p. 192). REFERÊNCIAS. CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. (tradução Odayr Olivetti). São Paulo: Cultura Cristã, 2006. (p. 177 a 192). Autor. Ivan Santos Rüppell Jr é ministro licenciado da Igreja Presbiteriana do Brasil, professor do Seminário Presbiteriano do sul extensão Curitiba. Atua em Redes de conexão de parcerias de Ações Sociais Evangélicas na cidade de Curitiba e região.

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